a noite abatia-se e com ela o frio a penetrar nos ossos. Uma mão, quase dormente, pendurava um cigarro da meia noite. Da janela do primeiro andar era impossível vê-los no passeio a olhar o mar, apenas um ponto vermelho. Dois casacos compridos e o cabelo levado pelo vento, duas figuras a preto e branco de costas para o mundo. Não falavam, ocupados a ver as ondas a esmagarem-se contra os rochedos. Dois mundos que não se tocavam unidos por um mar furioso. Ela fitava a espuma que se precipitava abandonada depois do embate, ele fumava um cigarro em que se comprimia o desejo de se enfiar dentro de água. O nevoeiro envolvia-os como um cobertor húmido que cortava as feições. Calados, sempre calados, as mãos dela escondidas; as dele, cada vez mais roxas, esqueciam a temperatura. De longe a longe um carro passava a alta velocidade para logo a estrada ficar vazia e apenas se notar o neblina a correr nos candeeiros. Tinham percorrido a marginal como se tentassem libertar-se de uma ameaça que os perseguia, cruzando a chuva rala que caía como se ela não existisse. A única coisa que comunicava entre eles era o barulho que o isqueiro dele fazia quando acendia um cigarro. O dia tinha-se afundado naquela margem de oceano e a noite imperava com o tom lilás que certas noites adquirem quando querem mostrar uma lua submersa de nuvens. A má iluminação noturna mostrava duas figuras a avançar com os casacos abertos pelo vento e as botas cada vez mais escuras de água. Quando resolveram parar, ainda chovia, e pelas faces rolavam pequenas gotas de água que os percorriam até ao peito. Tinham, já, passado o ponto em que o frio, ou a água, os incomodava, em que o abismo que as suas sombras projectavam tinha importância, que a ausência não se tinha tornado parte do caminho percorrido. Existia uma clausura que não parecia partir pela intemperie, uma dor que eles queriam quebrar pelo sofrimento infligido e que se transformava numa constante torturante. Os precipícios dentro de cada um deles berravam mais alto que as ondas a quebrarem, que o mar a galgar a praia, furioso, até quase os atingir no passeio, mas nenhum deles conseguia ouvir o outro, eram como dois barcos no meio das vagas sem conseguirem comunicar, fustigados pelo vento e pela chuva, tornados cegos pelo nevoeiro, a cruzarem irremediavelmente a espuma até aos rochedos lhes abrirem os cascos e sangrarem a asfixia de permanecerem imóveis sem que do primeiro andar alguém os conseguisse ouvir ou avisar que o farol se apagou, que o faroleiro ficou bêbado e tombou no café sem activar a luz, que aqui os espinhos não rasgam a pele, alojam-se e criam gangrena, escondidos na carne, até que a infecção se veja nos olhos e mais não consigam que os fechar, a arder de uma febre da qual não se conseguem libertar.
"Na noite profunda e escura da alma, são sempre três horas da madrugada." - F. Scott Fitzgerald
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
in a shallow grave
From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.
E. A. Poe
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
But my words like silent raindrops fell
Do not go gentle into that good night
Dylan Thomas, 1914 - 1953
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
domingo, 16 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
é, o tempo não pára
Disparo contra o sol, sou forte sou pro acaso, minha metralhadora cheia de mágoas, eu sou o cara. Cansado de correr na direcção contrário, sem pódio de chegada ou beijo de narmorada, eu sou mais um cara. Mas se você achar que eu estou derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados, porque o tempo, o tempo não pára. Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão da caridade de quem me detesta. A tua piscina está cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos factos, o tempo não pára. Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades, o tempo não pára. EU não tenho data para comemorar, às vezes os meus dias são de par em par, procurando a agulha num palheiro, nas noites de frio é melhor nem nascer, nas de calor se escolhe: é matar ou morrer, e assim nos tornamos brasileiros. Te chamam de ladrão, de bixa, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro pois assim se ganha mais dinheiro. A tua piscina está cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos factos, é o tempo não pára, eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu, de grandes novidades mas, é o tempo não pára
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Book of Revelation
When the Lamb broke the fourth seal, I heard the voice of the fourth living creature saying, “Come.” I looked, and behold, an ashen horse; and he who sat on it had the name Death; and Hades was following with him. Authority was given to them over a fourth of the earth, to kill with sword and with famine and with pestilence and by the wild beasts of the earth.
sábado, 1 de novembro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
terça-feira, 21 de outubro de 2014
He broke from them, and then he broke from himself
I
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar
Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us-if at all-not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.
T.S. Elliot
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar
Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us-if at all-not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.
T.S. Elliot
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
terça-feira, 7 de outubro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
terça-feira, 16 de setembro de 2014
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
cravar as facas na cintura industrial
tira a mão do queixo não penses mais nisso. Que lá vai já deu o que tinha a dar, quem ganhou ganhou e usou-se disso, quem perdeu há-de ter mais cartas para dar. Enquanto alguns fazem figura, outros sucumbem à batota, chega onde tu quiseres mas goza bem a tua rota. Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar, enquanto houver ventos e mar a gente não vai parar. Todos nós pagamos por tudo o que usamos, o sistema é antigo e não poupa ninguém, somos todos escravos do que precisamos. Reduz as necessidades se queres passar bem, que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo e a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo. Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar, enquanto houver ventos e mar a gente não vai parar. Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar enquanto houver estrada para andar. Enquanto houver ventos e mar, agente não vai parar enquanto houver ventos e mar.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
segunda-feira, 28 de julho de 2014
he ain't what he seems
na sua mão tinha a estranheza de não conseguir comunicar com as pessoas, na outra, na outra mão, uma ausência de chumbo pesado como o liquido que corroí a ferrugem do seu peito
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Atira ao Zenit (e pode ser que te saia a duração da canção)
com a decadência de um cigarro e uma camisa desabotoada
(e uma performance pattiana de um requiem… por un Coun)
sexta-feira, 11 de julho de 2014
quarta-feira, 9 de julho de 2014
quarta-feira, 2 de julho de 2014
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Notas de um suicida
"Que muitos viciados numa substância também são viciados em pensar, o que significa que mantêm uma relação pouco saudável e compulsiva com o seu próprio pensamento. (…) Que noventa e nove por cento do pensamento dos pensadores compulsivos é sobre eles mesmos; que noventa e nove por cento deste pensamento autodirecionado consiste em imaginar e depois prepararem-se para as coisas que lhe vão acontecer; e depois, estranhamente, que se deixarem de pensar sobre isso, que cem por cento das coisas em que ocupam noventa e nove por cento do seu tempo e energia imaginando e preparando-se para tudo, as contingências e consequências que delas podem advir nunca são boas. E que, portanto, isto se relaciona de forma bastante interessante com as necessidades da fase inicial de sobriedade de rezar pela perda literal da cabeça. Em poucas palavras, que noventa e nove por cento da atividade dessa cabeça consiste em tentar pregar um cagaço a si própria."
David Foster Wallace - A piada Infinita
David Foster Wallace - A piada Infinita
quarta-feira, 11 de junho de 2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
da parede
Não me interessa o que dizem os
dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava de
chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no
Natal.
Não acredito nos detidos
políticos,
nem me impressionam os miúdos
descalços
que mostram os dentes para as
máquinas Minolta
dos turistas italianos.
Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços ou
retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na
Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.
O que me preocupa — e isso,
sim, pode ser relevante
para o fim da história — é
saber quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento
que vos fala agora?
Golgona Anghel
quarta-feira, 23 de abril de 2014
a arder em lume lento
Disseste-me que tinhas uma vocação extraordinária para magoar pessoas. acho que sorri, foi naquele café da meia noite, ou no dia seguinte. Cinco excepções para cinco confissões, foram mais, o bushmills correu como catalisador, ainda que distante. Sorri por reflexo, acreditei que tinhas uma vocação para magoar pessoas, para que o sol te pedisse calor e tu com pequenos estalactites para dar, com um vazio de gruta no peito a sorrir e a derramar o olhar como um manto cravejado de estrelas polares. A distância entre ti e o teu presente era tão grande que eu não podia deixar de acreditar. Vivias nas linhas escritas dos poetas antes de ti, nas cartas que se enviavam, nos telegramas. Vivamos todos aí, e, por engano, tínhamos que lidar com as personagens que sangravam, e a nós tudo nos parecia tão distantes. Na altura tinha 40 e poucos, tu, um pouco menos, ainda hoje um pouco menos ou talvez muito menos. Pouco sabíamos da vida, e isso não interessava. Os nossos dramas eram infinitos, assim como as nossas incertezas, o pendor dramático corroía-nos as insónias e vivamos sem saber que o nó no estômago podia ser desatado. Eu ainda não sei, talvez tu já o saibas mas não me ensinaste como fazer que as páginas escritas passassem a ser a realidade da paisagem à nossa frente. Não havia inocentes, só nós, era nisso que acreditávamos, já sem acreditar, sem nunca acreditar, hipersensibilidades hiperbrutalidade, mas de nós sabíamos o que nos era verdadeiro quando adormecemos por exaustão, dos outros é sempre uma incógnita que nos pede mais do que somos capaz de dar, que nos impele a cortar os olhos e a sacrificar as facas na cintura, com a vã esperança de responder ao que nos é pedido, de conseguir escrever o que os outros querem ler. Nunca capazes de escrever o que fica a arder em lume brando por tanto tempo, pelo tempo necessário para que valha a pena, sempre a considerar isso uma brutalidade encardida de mágoas, as que não temos a coragem de pagar. Partir, quebrar, ser, exultar, gritar com a força dos pulmões, já sem ar, que não somos capazes, que não nos é quente, que não fomos, que não somos, talvez, aquilo que era suposto, uma constante sensação de falha de características para o que queríamos dar, para o sorriso que queríamos alcançar. Existe essa dor dupla de falta de aderência, de olharmos o espelho e não sermos nós os reflectidos, outros talvez, algo melhor que nós, mas não nós, e, no mesmo gesto, nesse mesmo esgar de olhos, ver reflectido o que deveríamos ser e não conseguimos por falta de algo normal.
O pior é que tudo parece conspirar para que o escarlate com que se cobre o peito seja mais lento que o esperado, seja mais escuro, não silve a escuridão mas absorva a dor de não ser o que se queria. Fazer o bem dirias tu, mas fazer o bem é impossível, essa tentativa vã de fazer o bem magoa sempre mais do que era suposto. A ti dá-te certezas; a mim parece-me uma quimera capaz de incendiar as dores mais profundas dos ossos e corroer-nos os olhos, com a incerteza tonta de que se estamos a fazer o bem estaremos sempre protegido das noites de temor. É falso, é tudo uma falsidade, nem a honestidade parece possível, não sem ser desembainhar uma espada carregada de tétano, e nela não habita a certeza de fazer o bem, a honestidade não é bondosa, é uma verdade tão pessoal que ergue barreiras de sangue a arder destinada a magoar todos os que se aproximam. Respeitar e corresponder, esquecer, anular, engolir, fazer o devido, não desiludir. É mais ou menos honesto? Em tempos pensei ter-te dito a verdade, agora já não sei. As nossas dividas avolumam-se e o credor é um homem de preto do qual não conseguimos ver os olhos.
Estás a dizer asneiras. Sabes que as digo sempre. Isso é mentira rapaz, tu és perigoso. Nem sempre. é mentira, sabes bem que o problema não é esse. Nunca sei nada, só a insegurança.
Havia a incerteza da pertença, dizia-te eu, que não havia essa sensação, mesmo que a pertença ficasse no farol que quebra o mar. Tu dizias o contrário, que era a incerteza da incerteza, que te tinha desiludido e fendido os olhos como só um cruzador é capaz. Parecias viver no alugar dos locais, sem a definitiva sensação de serem teus, sem a certeza que era ali que voltavas todas as noites, pois no teu peito parecia sempre haver um lugar que escondias. Era essa duplicidade entre o interior e o exterior que te tirava a certeza de não teres pertença, dizias-me que sim, eu não sei se acreditava. Falava-te da ausência desse interior que não permite que haja exterior ao qual pertencemos e a ti não parecia estranho, fazendo-me acreditar que existia um abismo de rochas violetas entre as tuas pertenças e que uma guerra surda habitava neles, uma guerra que despedaçava os locais de forma tão violenta que te era impossível aceitares que não pertencias. Talvez seja sempre esse o estado de pertencer em pessoas como tu, uma violenta refrega entre o presente e o desajuste do ser. Havia pontes, bem sei que havia pontes, cinzentas de betão descarnado, de betão que deixa os ferros à mostra depois de tanto batido, que tu cruzavas a toda a hora com a vontade, com uma obrigação que era só interna, que te retesava os músculos e te prendia os nervos ao ponto de já não te ser possível falar a não ser contigo mesmo, de seres aquilo que devias, de pagares esses pequenos preços para toda a gente e que na verdade eram dívidas tão volumosas que te esmagavam contra o chão, em que cada passo era um arrastar que esfarelava os joelhos e te retirava o ar dos pulmões. Por meu lado, existia sempre um abismo de onde olhava na imobilidade de não ter para onde correr, de não me terem explicado porque ali estava e onde apenas uma pilha de livros me fazia companhia. Tentei deitar a pilha ao chão muitas vezes, disse-te, para conseguir ver se depois deles havia caminho, mas sempre que eles caiam aparecia o seu dobro, numa constante biblioteca de Borges que não deixava de ser também um dos seus labirintos aprisionadores. Talvez tudo não fosse mais do que um exagerado gosto pelas paisagens grandiosas em estado de degradação melancólica e a realidade fosse apenas a de normalidade para qualquer pessoa, uma pequena disputa entre ser e querer estar.
Não sei se concordo contigo. Porquê? Tens lume? - estende o braço - porque não me parece que todas as pessoas sintam o mesmo. Ou que se sintam tão atormentadas. Ou isso. É sempre mais difícil quando tens 60 anos e tens que te levantar às cinco da manhã para apanhar um autocarro, enquanto cinco pessoas estão atrás de ti ainda levados depois do jantar a fazer horas para as roulottes fecharem.
Falavas-me da honestidade como um dilema tão sofrido que eu não tenho a certeza se percebia completamente. Percebia como reflexo das minhas concepções da honestidade, na certeza que era sempre a melhor via. Debatias-te se seria sempre o melhor, se a honestidade contigo era mais importante do que a honestidade para com os outros, para com as tuas dívidas que nem sabias estar a contrair no momento em que as fizeste, que as tentas pagar por culpa, mais do que pelo sentido de o deveres, ou por uma questão de honestidade. Nunca percebi se a culpa era exterior ou eras tu que a formavas num ritual maníaco-depressivo, se eras tu que o permitias ou ela se instalava como uma parede opressora. Existia uma certa tendência para a misantropia que partilhávamos, e talvez isso emoldurasse as nossas relações com as culpas e a necessidade de ir pagando os preços até que de alguma forma algo se parte e a culpa torna-se o fim em si mesmo, imolando-se pelo fogo que foi contraindo. O tempo que medeia a dor e a dor à qual já não consegues sobreviver depende apenas da capacidade de sofrimento e do quanto te deixam sofrer, não pela cegueira mas pela partilha de dores. Existe um momento em que a honestidade é o que deves e outro em que a honestidade é apenas de uma brutal cobardia. Que deves tu a ti mesmo? mais do que fazeres o que achas que deves? sem a segurança de que não haja sangue, de que as tuas mãos não agarrem um punhal que sangre pelo cabo?
e tu olhavas-me com a cinza do cigarro a pender do cotovelo pousado na mesa, os meus olhos mais baixos, que os teus já marejados, à procura de um ponto onde fixar os nós que parecem esmigalhar-se no peito criando buracos de nada. Um cinzeiro e dois copos na mesa, uma janela ao canto de onde só se via um mar cinza de nevoeiro e os candeeiros criavam pequenas abóbadas amarelas ao seu redor.
Perguntaste-me muitas vezes qual é a linha que separa a ignomínia do que se deve dar, qual a fronteira onde o que fazes já é te rebaixares, se as outras pessoas fazem o mesmo, se é o que deve ser, se é o suposto. Nunca soube responder, nunca percebi o que é normal, alguns dir-te-iam que a fronteira está onde estás feliz, mas ambos sabemos que essa fronteira não serve, se essa fosse a nossa escolha significava nunca fazer nada e estar permanentemente em fuga, estar sempre no estado de não estar. A colocar-se, seria a questão do que nós temos que dar, para outros estarem felizes, com a esperança de assim termos algum espaço para o mesmo, e isso sempre foi o que nos coloca nesta violência de insónias e asfixia.
Pára, por favor pára!
O pior é que tudo parece conspirar para que o escarlate com que se cobre o peito seja mais lento que o esperado, seja mais escuro, não silve a escuridão mas absorva a dor de não ser o que se queria. Fazer o bem dirias tu, mas fazer o bem é impossível, essa tentativa vã de fazer o bem magoa sempre mais do que era suposto. A ti dá-te certezas; a mim parece-me uma quimera capaz de incendiar as dores mais profundas dos ossos e corroer-nos os olhos, com a incerteza tonta de que se estamos a fazer o bem estaremos sempre protegido das noites de temor. É falso, é tudo uma falsidade, nem a honestidade parece possível, não sem ser desembainhar uma espada carregada de tétano, e nela não habita a certeza de fazer o bem, a honestidade não é bondosa, é uma verdade tão pessoal que ergue barreiras de sangue a arder destinada a magoar todos os que se aproximam. Respeitar e corresponder, esquecer, anular, engolir, fazer o devido, não desiludir. É mais ou menos honesto? Em tempos pensei ter-te dito a verdade, agora já não sei. As nossas dividas avolumam-se e o credor é um homem de preto do qual não conseguimos ver os olhos.
Estás a dizer asneiras. Sabes que as digo sempre. Isso é mentira rapaz, tu és perigoso. Nem sempre. é mentira, sabes bem que o problema não é esse. Nunca sei nada, só a insegurança.
Havia a incerteza da pertença, dizia-te eu, que não havia essa sensação, mesmo que a pertença ficasse no farol que quebra o mar. Tu dizias o contrário, que era a incerteza da incerteza, que te tinha desiludido e fendido os olhos como só um cruzador é capaz. Parecias viver no alugar dos locais, sem a definitiva sensação de serem teus, sem a certeza que era ali que voltavas todas as noites, pois no teu peito parecia sempre haver um lugar que escondias. Era essa duplicidade entre o interior e o exterior que te tirava a certeza de não teres pertença, dizias-me que sim, eu não sei se acreditava. Falava-te da ausência desse interior que não permite que haja exterior ao qual pertencemos e a ti não parecia estranho, fazendo-me acreditar que existia um abismo de rochas violetas entre as tuas pertenças e que uma guerra surda habitava neles, uma guerra que despedaçava os locais de forma tão violenta que te era impossível aceitares que não pertencias. Talvez seja sempre esse o estado de pertencer em pessoas como tu, uma violenta refrega entre o presente e o desajuste do ser. Havia pontes, bem sei que havia pontes, cinzentas de betão descarnado, de betão que deixa os ferros à mostra depois de tanto batido, que tu cruzavas a toda a hora com a vontade, com uma obrigação que era só interna, que te retesava os músculos e te prendia os nervos ao ponto de já não te ser possível falar a não ser contigo mesmo, de seres aquilo que devias, de pagares esses pequenos preços para toda a gente e que na verdade eram dívidas tão volumosas que te esmagavam contra o chão, em que cada passo era um arrastar que esfarelava os joelhos e te retirava o ar dos pulmões. Por meu lado, existia sempre um abismo de onde olhava na imobilidade de não ter para onde correr, de não me terem explicado porque ali estava e onde apenas uma pilha de livros me fazia companhia. Tentei deitar a pilha ao chão muitas vezes, disse-te, para conseguir ver se depois deles havia caminho, mas sempre que eles caiam aparecia o seu dobro, numa constante biblioteca de Borges que não deixava de ser também um dos seus labirintos aprisionadores. Talvez tudo não fosse mais do que um exagerado gosto pelas paisagens grandiosas em estado de degradação melancólica e a realidade fosse apenas a de normalidade para qualquer pessoa, uma pequena disputa entre ser e querer estar.
Não sei se concordo contigo. Porquê? Tens lume? - estende o braço - porque não me parece que todas as pessoas sintam o mesmo. Ou que se sintam tão atormentadas. Ou isso. É sempre mais difícil quando tens 60 anos e tens que te levantar às cinco da manhã para apanhar um autocarro, enquanto cinco pessoas estão atrás de ti ainda levados depois do jantar a fazer horas para as roulottes fecharem.
Falavas-me da honestidade como um dilema tão sofrido que eu não tenho a certeza se percebia completamente. Percebia como reflexo das minhas concepções da honestidade, na certeza que era sempre a melhor via. Debatias-te se seria sempre o melhor, se a honestidade contigo era mais importante do que a honestidade para com os outros, para com as tuas dívidas que nem sabias estar a contrair no momento em que as fizeste, que as tentas pagar por culpa, mais do que pelo sentido de o deveres, ou por uma questão de honestidade. Nunca percebi se a culpa era exterior ou eras tu que a formavas num ritual maníaco-depressivo, se eras tu que o permitias ou ela se instalava como uma parede opressora. Existia uma certa tendência para a misantropia que partilhávamos, e talvez isso emoldurasse as nossas relações com as culpas e a necessidade de ir pagando os preços até que de alguma forma algo se parte e a culpa torna-se o fim em si mesmo, imolando-se pelo fogo que foi contraindo. O tempo que medeia a dor e a dor à qual já não consegues sobreviver depende apenas da capacidade de sofrimento e do quanto te deixam sofrer, não pela cegueira mas pela partilha de dores. Existe um momento em que a honestidade é o que deves e outro em que a honestidade é apenas de uma brutal cobardia. Que deves tu a ti mesmo? mais do que fazeres o que achas que deves? sem a segurança de que não haja sangue, de que as tuas mãos não agarrem um punhal que sangre pelo cabo?
e tu olhavas-me com a cinza do cigarro a pender do cotovelo pousado na mesa, os meus olhos mais baixos, que os teus já marejados, à procura de um ponto onde fixar os nós que parecem esmigalhar-se no peito criando buracos de nada. Um cinzeiro e dois copos na mesa, uma janela ao canto de onde só se via um mar cinza de nevoeiro e os candeeiros criavam pequenas abóbadas amarelas ao seu redor.
Perguntaste-me muitas vezes qual é a linha que separa a ignomínia do que se deve dar, qual a fronteira onde o que fazes já é te rebaixares, se as outras pessoas fazem o mesmo, se é o que deve ser, se é o suposto. Nunca soube responder, nunca percebi o que é normal, alguns dir-te-iam que a fronteira está onde estás feliz, mas ambos sabemos que essa fronteira não serve, se essa fosse a nossa escolha significava nunca fazer nada e estar permanentemente em fuga, estar sempre no estado de não estar. A colocar-se, seria a questão do que nós temos que dar, para outros estarem felizes, com a esperança de assim termos algum espaço para o mesmo, e isso sempre foi o que nos coloca nesta violência de insónias e asfixia.
Pára, por favor pára!
terça-feira, 15 de abril de 2014
O silêncio, ai o silêncio
“Não há gravações do que se passou durante a entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, na sala 2 da Fundação Gulbenkian, a 7 de Abril. Havia jornalistas presentes mas não em trabalho, a tomar notas. Por isso não há forma de citar “ipsis verbis” o que disse o Secretário de Estado da Cultura (SEC), Jorge Barreto Xavier. Mas há algumas dezenas de testemunhas que podem acrescentar ou corrigir o que vou tentar resumir agora aqui, por tudo se ter passado numa cerimónia pública.
Sendo este prémio tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, decidiu o actual presidente, Cavaco Silva, à semelhança de anos anteriores, fazer-se representar. Neste caso, pelo seu Consultor para Assuntos Culturais, Diogo Pires Aurélio. Isto era o que eu sabia quando escrevi o discurso para a ocasião.
Já no átrio da Gulbenkian, perto da hora marcada, 18h, a APE comunicou-me que a cerimónia estava um pouco atrasada porque esperavam o Secretário de Estado da Cultura.
Quando Barreto Xavier chegou e entrámos todos para a sala, o protocolo sentou-o ao centro da mesa, junto a Diogo Pires Aurélio. Nas pontas, Gulbenkian (representada por Rui Vieira Nery), APE (José Manuel Mendes, José Correia Tavares), júri (representado por Isabel Cristina Rodrigues) e eu. Vieira Nery abriu, sucintamente; seguiram-se discursos da APE; Isabel Cristina Rodrigues leu o texto em que o júri justifica a atribuição do prémio a "E a Noite Roda". Diogo Pires Aurélio e eu levantámo-nos para que ele me entregasse o sobrescrito do prémio, um minuto de formalidade, sem palavras, para a fotografia. Chegou a minha vez de discursar, li as páginas que trazia. No fim, houve uma ovação de pé. Digo isto para dar conta da atmosfera que os representantes do poder político tinham diante de si.
A APE convidou então o SEC a intervir. Ele escolheu falar sentado, sem se deslocar ao púlpito. Uma das coisas que disse, na parte, digamos, cultural da intervenção, foi que eu bem podia declarar que não fazia ficção porque claro que fazia ficção porque é isso que um escritor faz, ficção. Foi o primeiro arroubo dirigista, que nos devia ter preparado para o que aí vinha.
Na parte, digamos, política, destaco quatro coisas: o SEC disse que eu devia estar grata por estarmos em democracia e eu poder dizer o que dissera; que durante anos os portugueses se tinham endividado acima das suas possibilidades; que, ao contrário do que eu dissera, ninguém saíra de Portugal por incentivo deste governo; e, sobretudo, que eu tinha dito que não devia nada a este governo mas que isso não era verdade porque este governo também subsidiava o prémio.
Referia-se ele, assim, a um prémio com décadas de existência; atribuído a alguns dos mais extraordinários escritores de língua portuguesa; cujo montante em dinheiro resulta de vários patrocínios, sendo que os públicos resultam do dinheiro dos contribuintes; e que tem atravessado os mais variados governos, sem que nunca, que me recorde, algum governante o tenha tentado instrumentalizar. Foi a mais escancarada confusão de Estado com Governo que já presenciei, para além do tom chantagista ao nível de jardim de infância das ditaduras. E, apesar dos apupos, de quem lhe gritava da plateia "Mentira!" e "O Estado somos nós!", o SEC insistia.
Como cabe ao Presidente da República, ou seu representante, encerrar a cerimónia, a APE instou Diogo Pires Aurélio a falar. O representante do Presidente da República declinou e encerrou a sessão. No fim, cumprimentou cordatamente todos os presentes na mesa e retirou-se.
Já Barreto Xavier, aproximou-se de mim na confusão da retirada. Julguei que se vinha despedir, depois de dizer o que tinha a dizer. Nada disso. Queria dizer-me, visivelmente irritado, que o que eu fizera tinha sido de um grande "primarismo". Respondi-lhe que então devia ter dito isso mesmo ao microfone, que eu já dissera o que tinha a dizer e não lhe ia dizer mais nada. Fui andando, para contornar a mesa e acabar com a cena, mas o SEC insistia: que eu tinha sido “primária”.
- Espécie de nota de imprensa de Alexandra Lucas Coelho
o que me espantou não foi o sucedido, foi a aparente normalidade com que o caso foi tratado, ou não tratado, na comunicação social. Gostava de ter ouvido (ou lido, caso se tratasse de outra espécie de nota de imprensa) a versão do SEC. Se calhar é só a mim que me parece mais grave que todas as outras trapalhadas noticiadas sobre o mesmo membro do governo, é que não se trata de espoliação do património material comum mas sim de… enfim, por cornos com a mão foi o outro corrido...
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Lá fora estão os senhores da guerra
Eu que sempre soube que te ia perder, apetecia-me ir bater à porta que conhecia mas o aviso de que ias para a guerra chegou há três meses e tu já partiste. Tentei perceber se os teus dois amigos foram contigo, mas deles nada soube, talvez tenham mudado de casa, não sei. Já não te via há algum tempo, desde que paraste de espreitar pela janela do local onde, cada vez menos, vou fumar como os meninos pequenos. Por vezes ainda olhava por cima do ombro e pensava ver-te a sombra, mas, depois, um barulho estalava e eu percebia que era só um ramo a bater na vidraça. Uma ou duas vezes liguei mesmo a luz e sai da penumbra a ver se, se fosses tu, darias um passo em frente e me deixavas uma mensagem gravada no tronco da árvore com o canivete. Agora tenho a certeza que foste para a guerra, para um qualquer país onde a batalha se trave, eu que nunca tive um familiar que fosse para uma guerra que não fosse nossa, o meu avó nasceu com a primeira guerra e na segunda não foi ninguém, só os meus tios foram para as colónias. Mas aí o caso era inteiramente diferente, foram defender o que diziam que era nosso, e concordando ou não lá foram porque não iam fugir para os locais para onde te enviaram, não tinham essa hipótese. Dizem-me que foi voluntário, que a decisão foi tua, mas não acredito bem nisso, não ias abandonar tudo a não ser que sentisses não ter outra escolha. Parece-me que ainda te vejo os sapatos na soleira da porta a perguntar se podias romper o meu silêncio e eu, que tantas vezes fingi não ver, só queria que o rompesses. Fugi quando não aguentava fazer mais, a pensar que não te impedia e tu agora foste, com as alternativas magras. Se soubesse podia não ter fugido, não sei, os lenços caíam-me com as lágrimas e eu não tenho a certeza se seria capaz de te impedir de alguma coisa, só sabia que te impedia a vida. Apetecia-me enviar-te um e-mail, mas não há caixas de e-mail na guerra, só novos começos todos os dias, com a fadiga das noites no céu estrelado e peito trémulo nas pintas da farda. Não quero ser como as meninas de lenço na mão a acenar aos navios, a pedir-te para teres cuidado e que cuides de ti. Que voltes bem, sem feridas. Não quero, pela mão, cheia de nada, que não consegue segurar lenços quando eles me caem, como lágrimas.
terça-feira, 11 de março de 2014
espelhos distorcidos
Quando se fuma como eu fumo, com a alma partida e a face rasgada por um lápis de metal, a inocência torna-se quimera ardente.
andava com estes dois pedaços de texto na cintura há mais de quatro meses, parte do texto escrito até já migrou para outro deixando o esqueleto ainda mais branco, e de repente, um daqueles tipos que nos rasgam o imaginário escreveu o que andávamos a dançar há meses de uma maneira que nunca seríamos capazes de escrever, e éramos capazes de jurar que nunca o tínhamos visto, mas se calhar vimos:
LA CANCIÓN DEL CROUPIER DEL MISSISSIPI
Canción pirata
Fumo mucho. Demasiado.Fumo para frotar el tiempo y a veces oigo la radio,
y oigo pasar la vida como quien pone la radio.
Fumo mucho. En el cenicero hay
ideas y poemas y voces
de amigos que no tengo. Y tengo
la boca llena de sangre,
y sangre que sale de las grietas de mi cráneo
y toda mi alma sabe a sangre,
sangre fresca no sé si de cerdo o de hombre que soy,
en toda mi alma acuchillada por mujeres y niños
que se mueven ingenuos, torpes, en
esta vida que ya sé.
Me palpo el pecho de pronto, nervioso,
y no siento un corazón. No hay,
no existe en nadie esa cosa que llaman corazón
sino quizá en el alcohol, en esa
sangre que yo bebo y que es la sangre de Cristo,
la única sangre en este mundo que no existe
que es como el mal programado, o
como fábrica de vida o un sastre
que ha olvidado quién es y sigue viviendo, o
quizá el reloj y las horas pasan.
Me palpo, nervioso, los ojos y los pies y el dedo gordo
de la mano lo meto en el ojo, y estoy sucio
y mi vida oliendo.
Y sueño que he vivido y que me llamo de algún modo
y que este cuento es cierto, este
absurdo que delatan mis ojos,
este delirio en Veracruz, y que este
país es cierto este lugar parecido al Infierno,
que llaman España, he oído
a los muertos que el Infierno
es mejor que esto y se parece más.
Me digo que soy Pessoa, como Pessoa era Álvaro de Campos,
me digo que estar borracho es no estarlo
toda la vida, es
estar borracho de vida y no de muerte,
es una sangre distinta de esa otra
espesa que se cuela por los tejados y por las paredes
y los agujeros de la vida.
Y es que no hay otra comunión
ni otro espasmo que este del vino
y ningún otro sexo ni mujer
que el vaso de alcohol besándome los labios
que este vaso de alcohol que llevo en el
cerebro, en los pies, en la sangre.
que este vaso de vino oscuro o blanco,
de ginebra o de ron o lo que sea
- ginebra y cerveza, por ejemplo -
que es como la infancia, y no es
huida, ni evasión, ni sueño
sino la única vida real y todo lo posible
y agarro de nuevo la copa como el cuello de la vida y cuento
a algún ser que es probable que esté
ahí la vida de los dioses
y unos días soy Caín, y otros
un jugador de poker que bebe whisky perfectamente y otros
un cazador de dotes que por otra parte he sido
pero lo mío es como en “Dulce pájaro de juventud”
un cazador de dotes hermoso y alcohólico, y otros días,
un asesino tímido y psicótico, y otros
alguien que ha muerto quién sabe hace cuánto,
en qué ciudad, entre marineros ebrios. Algunos me
recuerdan, dicen
con la copa en la mano, hablando mucho,
hablando para poder existir de que
no hay nada mejor que decirse
a sí mismo una proposición de Wittgenstein mientras sube
la marea del vino en la sangre y el alma.
O bien alguien perdido en las galerías del espejo
buscando a su Novia. Y otras veces
soy Abel que tiene un plan perfecto
para rescatar la vida y restaurar a los hombres
y también a veces lloro por no ser un esclavo
negro en el sur, llorando
entre las plantaciones!
Es tan bella la ruina, tan profunda
sé todos sus colores y es
como una sinfonía la música del acabamiento,
como música que tocan en el más allá,
y ya no tengo sangre en las venas, sino alcohol,
tengo sangre en los ojos de borracho
y el alma invadida de sangre como de una vomitona,
y vomito el alma por las mañanas,
después de pasar toda la noche jurando
frente a una muñeca de goma que existe Dios.
Escribir en España no es llorar, es beber,
es beber la rabia del que no se resigna
a morir en las esquinas, es beber y mal
decir, blasfemar contra España
contra este país sin dioses pero con
estatuas de dioses, es
beber en la iglesia con música de órgano
es caerse borracho en los recitales y manchas de vino
tinto y sangre “Le livre des masques” de Rémy de Gourmont
caerse húmedo babeante y tonto y
derrumbarse como un árbol ante los farolillos
de esta verbena cultural. Escribir en España es tener
hasta el borde en la sangre este alcohol de locura que ya
no justifica nada ni nadie, ninguna sombra
de las que allí había al principio.
Y decir al morir, cuando tenga
ya en la boca y cabeza la baba del suicidio
gritarle a las sombras, a las tantas que hay y fantasmas
en este paraíso para espectros
y también a los ciervos que he visto en el bosque,
y a los pájaros y a los lobos en la calle y
acechando en las esquinas.
Leopoldo María Panero
quinta-feira, 6 de março de 2014
Leopoldo María Panero (1948 - 2014)
“Morreu Leopoldo María Panero, morreu o nosso Peter Pan, o nosso Artaud, o nosso louco, o nosso intocável, o nosso monstro. Aconteceu em Las Palmas (Gran Canária), à meia-noite, na Unidade Clínica de Reabilitação do Hospital Juan Carlos I. Chegou a hora do obituário mais esperado da literatura espanhola.”
El Mundo
El Mundo
El Loco
He vivido entre los arrabales, pareciendo
un mono, he vivido en la alcantarilla
transportando las heces,
he vivido dos años en el Pueblo de las Moscas
y aprendido a nutrirme de lo que suelto.
Fui una culebra deslizándose
por la ruina del hombre, gritando
aforismos en pie sobre los muertos,
atravesando mares de carne desconocida
con mis logaritmos.
Y sólo pude pensar que de niño me secuestraron para una alucinante batalla
y que mis padres me sedujeron para
ejecutar el sacrilegio, entre ancianos y muertos.
He enseñado a moverse a las larvas
sobre los cuerpos, y a las mujeres a oír
cómo cantan los árboles al crepúsculo, y lloran.
Y los hombres manchaban mi cara con cieno, al hablar,
y decían con los ojos «fuera de la vida», o bien «no hay nada que pueda
ser menos todavía que tu alma», o bien «cómo te llamas»
y «qué oscuro es tu nombre».
He vivido los blancos de la vida,
sus equivocaciones, sus olvidos, su
torpeza incesante y recuerdo su
misterio brutal, y el tentacúlo
suyo acariciarme el vientre y las nalgas y los pies
frenéticos de huida.
He vivido su tentación, y he vivido el pecado
del que nadie cabe nunca nos absuelva
quarta-feira, 5 de março de 2014
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
domingo, 12 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
2013
I got a feeling I just can't shake, I got a feeling that just won't go away - You've got it, just keep on pushing and, keep on pushing, Push the sky away. And if your friends think that you should do it different, And if they think that you should do it the same. You've got it, just keep on pushing and, keep on pushing. Push the sky away. And if you feel you got everything you came for, If you got everything and you don't want no more, You've got it, just keep on pushing and, keep on pushing. Push the sky away!
You've got it, just keep on pushing and, keep on pushing. Push the sky away...
domingo, 5 de janeiro de 2014
72 Temporadas - Eusébio
Nació destinado a lustrar zapatos, vender maníes o robar a los distraídos. De niño, lo llamaban Ninguém, nadie, ninguno. Hijo de madre viuda, jugaba al fútbol con sus muchos hermanos en los arenales de los suburbios, desde el amanecer hasta la noche.
En el Mundial del 66, sus zancadas dejaron un tendal de adversarios por el suelo y sus goles, desde ángulos imposibles, desataron ovaciones de nunca acabar.
Fue un africano de Mozambique el mejor jugador de toda la historia de Portugal. Eusebio: altas piernas, brazos caídos, mirada triste
Eduardo Galeano
En el Mundial del 66, sus zancadas dejaron un tendal de adversarios por el suelo y sus goles, desde ángulos imposibles, desataron ovaciones de nunca acabar.
Fue un africano de Mozambique el mejor jugador de toda la historia de Portugal. Eusebio: altas piernas, brazos caídos, mirada triste
Eduardo Galeano
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Guiltless
"…procurando adivinhar o que eu sentia e não sentia fosse o que fosse ou sentia coisas sem importância para os outros e que me custam contar, respondia-lhes que a lua me sorria na intenção que me deixassem em paz onde o silêncio se encontra com a noite e as árvores e as coisas desistem de ser…"
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
António Lobo Antunes
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Personne ne se rend compte que certaines personnes dépensent beaucoup d’énergie simplement pour être normale*
um homem é o somatório do seu ser com o seu passado e os sonhos do seu futuro. Retirar ao homem o seu desejo futuro origina um animal amorfo, tirar-lhe o seu passado transfigura-o numa besta sem escrúpulos. O momento presente é, por definição, uma ausência de tempo ou de espaço, tudo é passado ou futuro, o agora é uma impossibilidade gelada, tudo já aconteceu ou vai acontecer. é o conjunto de argumentos passados que permite a corrida para o futuro e é o excesso de passado que hipoteca o futuro. "to have me in the future you have to forgive my past". por seu lado, o excesso de futuro não permite que o passado se acumule de modo a robustecer o acontecer de futuro, um oroboro terrivelmente pernicioso, cheio de dúvidas e ânsias que nunca se concretizam. Existem sombras mais escuras que a noite "como esta casa deve ser triste às três horas da tarde" "na noite mais escura da alma são sempre três da madrugada" e é uma combinação de objectivos futuros que permitem dar sentido ao passado que se constrói como realizador de um filme muito próprio, onde a trivialidade da realidade é relegada para um discursos auto existencialista. Têmis e Nêmesis de uma noite demasiado longa, de um dia demasiado perpétuo, jogo de dados com um fim estabelecido. é uma sedução da vida à morte, uma sedução, que como todas as mulheres, espera ganhar sabendo que não existem realmente vencedores, é um desequilíbrio entre dar e perder, uma vingança e necessidade de retribuição e uma temperança que se propaga para aplacar o futuro, para o conquistar, para sobreviver ao passado. um jogo entre atrair e vingar. vingar o quê? as pequenas loucuras ou as pequenas perdas? atrair o quê? pequenas vitórias ou novas cartas para um jogo que já se perdeu? aqui surge o ser, moldado, esculpido, cinzelado, estropiado, magoado pelo seu contexto. não o incorpora, a sede de sangue será sempre sede de sangue mesmo num campo de magnólias, e portanto o contexto embora perpétuo é um jogo de livre arbítrio, mesmo que a única escolha seja antecipar o olvido e recolher-se nos seus braços frios. contudo, o seu contexto, iminentemente interno como na caverna mais do que o externo da propaganda é ao mesmo tempo recurso e produto do eu, permitindo, ao mesmo tempo que inviabiliza, as escolhas livres de o serem, afigurando-se, assim, como as escolhas de um animal enjaulado sem saber que engoliu a chave do seu cárcere. a própria consciência desse gole prisioneiro constitui um recurso pouco plausível para alguém que ainda espera o futuro e impossível para quem esqueceu o passado. não passando, isto tudo, de um diálogo com o absurdo onde Nix colocará um afago final, de, onde brotarão deuses.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
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