sábado, 29 de agosto de 2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

sábado, 22 de agosto de 2015

give me a sign

Em Bruxelas? mas o que vou fazer a bruxelas? comer chocolates e mijar nas fontes? Não me parece. é preciso que vás lá, já te reservei hotel. fazer o quê? há coisas que não se dizem por telefone. temos que arranjar um novo meio de comunicação. regressar aos antigos? talvez, mas este parece-me desadequado. Desadequado porquê? é curto. curto? tu é que és curto. pois isso já sabemos, mas mesmo assim parece-me melhor mudar. seja, como quiseres, mas vais ter que ir lá.

Dois dias depois encontramos-nos no escritório do rio. Simpático, com uma nesga de rio pela janela, de viés claro, de frente era uma praça com um artefacto com um significado qualquer que nunca cheguei a saber qual era - demasiados carros estacionados para que eu me desse ao trabalho de deambular por lá ao telefone. Chegou atrasado como era hábito o que me deu tempo para ficar a ver a vizinhança. Já não ia lá há algum tempo e o bairro, embora não muito agradável para a classe média, era consideravelmente aprazível. Na verdade, não demorará muito a que nenhum dos actuais habitantes consiga lá viver. A maior parte morrerá, estão a caminhar para lá de forma bastante sustentada do alto dos seus setenta anos, e os restantes, a maior parte filhos e netos ficará sem conseguir suportar o elevar das rendas ou resistir ao poder de mais umas quantas massas no bolso em troco de irem viver para outro lado, um bocadinho mais afastado do rio ou na mais completa periferia talvez seja mais realista. Os que resistirem serão alvo de uma tramóia qualquer com a câmara municipal que conseguirá levantar problemas suficientes para que o preço, bastante abaixo dos futuros proveitos que os agentes imobiliários tirarão quando pintarem e escavacarem as casas para fazer delas espaços de áreas aprazíveis à nova classe que se esquecerá rapidamente que nem sempre ali viveu, que lhes ofereceram seja muito razoável. Em todo o caso o Bigs, café bar, já parece ser um sinal estranho, ainda tem muita gente amiga dos netos do bairro, deste fenómeno. Gajo porreiro o dono, conseguimos depois umas quantas idas lá, e umas quantas garrafas de espumante abertas, que ele nos desse a atenção necessária para perceber que tinha que isolar aquilo de forma decente, gastava muito em electricidade para aquecer ou arrefecer aquilo, ou pelo menos foi o que o convenceu, e que nós, por mero acaso, sabíamos exactamente quem deveria fazer o trabalho por um valor muito razoável, e respectivos 30% de agenciamento. Quando chegou, já eu estava no terceiro cigarro e a pensar porque é que aquele escritório era ainda mais despido que os outros, três mesas, quatro cadeiras, duas prateleiras vazias, um armário de metal sem portas e um teclado e um monitor, nada de computador propriamente dito, esbaforido e com o telefone colado ao ouvido fez uns sinais de que era só mais um segundo e pegou na chave da casa de banho e desapareceu por mais vinte minutos. Embora não fosse assim tão normal como isso o melhor é nunca perguntar a um tipo porque é que ele demora vinte minutos na casa de banho, em especial se chega a falar como se se tivesse ausentado apenas um minuto. Em frente ao escritório, que ficava num segundo piso do que poderia ter sido em tempos um armazém do início do século XX, ficava um edifício, mais ao menos, gémeo que albergava uma embaixada de uma país de leste qualquer. Já lá tinha ido vezes suficientes para perceber que o gordo que chegava num fiat 500, dos novos, branco, com um excesso de velocidade de pelo menos o dobro do permitido na zona, era o embaixador; entrava directamente para a garagem e já só se o via a percorrer o corredor enquanto as pessoas o cumprimentavam com muitos salamaleques, ou pelo menos assim o parecia, estilo filme mudo, do outro lado da rua.
onde estacionaste? na rua que desce para o tanque. qual tanque? duas ruas atrás. Ah, aquilo é um tanque? é, nunca viste as mulheres a lavar lá roupa? bem, vamos ao que interessa. Amanhã tens que ir a Bruxelas ter com o Albert. Quem? Aquele com quem estiveste em Bucareste, o da farda de general. General? Não interessa, de militar. Sei. Tens que ir lá ter com ele e um sócio e ver como é que se envia um contentor da Serra Leoa para cá e depois para Itália. ok, está acertado com ele o preço? está, o Piçarra tratou disso. Só tens que ver como é que são as garantias necessárias. bancárias? sim, e quanto é que ele paga pelo serviço. Que é que vem no contentor? - algo que ficava sempre na dúvida de querer saber. Níquel. porque é que tem que passar cá? faz-se dinheiro com aquilo. Quem é o proprietário do contentor? Uma das empresas do general. é só para fazer o transporte? só. ok, mas digo-te já que acho uma ideia de merda fazer isto em Bruxelas, de merda mesmo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Upon your shore

Querer tinha pouco a haver com a situação, talvez por isso se tivesse afastado do dia-a-dia, era algo que lhe corria nas veias e lhe inundava a mente em todas as situações. Tinha tentado os tratamentos do costume, mais ou menos assistidos, sem grande sucesso. A espaços conseguia uns dias sem que o corpo se contorcesse, olhava para baixo e pensava que já tinha recuperado o seu estado prévio e era aí que percebia que nada tinha passado e tudo voltava. À mesa de refeições ficava de repente sem apetite, que já não era muito, pelo que estava a ser servido, quando se ia deitar enfrentava a insónia e acordava nessa insónia de manhã, demasiado cedo sem a noção de onde acordava, mas onde o caso era mais grave era nas longas horas do dia. De noite, sempre conseguia desaparecer por umas horas e mais das vezes não se lembrava do que sonhava, agora de dia não havia fuga possível. Nas lentas horas das tardes era uma realidade que queimava a pele, que se consumia em cigarros e água na tentativa de limpar o organismo. Olhava e procurava, refazia mentalmente o processo vezes sem contas, eram golas vermelhas e alças pretas, quadros que faziam lembrar pollock, tudo coberto com cortinas de fumo. Levantava-se e sentava-se constantemente, pequenos passos para a frente e para trás, os olhos perdidos noutros mundos, noutras geografias, as imagens a cruzar-lhe a mente sem sentido, desde toxinas de cobras para curar estrabismo a sapatos com flores no calcanhar, métodos de monte carlo e rendas. Procurava distrair-se com actividades manuais, acalmar, procurar no craftster algo onde se fixar, um paliativo de pouco impacto. Não, não tinha nada a haver com querer, era uma impressão de pele.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Cat people

Avistei o Baltazar a passar ao longe, naquela linha da costas vêm-se vultos que mais parecem gatos negros e o Arquimedes dentro de água gritaria tão alto que se ouviria em Paris. O sol encontra-se de frente e a imagem que tens é a que guardas na retina dos olhos de anos volvidos, franzes a testa e é um decalque do que guardas que vai passando. Ainda o tentei alcançar mas ele já se tinha esfumado, talvez o consiga ver, mais tarde, no canto do costume.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Purple heart

não se pode retirar, não se pode dar também, é algo que se merece e que fica sempre, a pender da lapela e do corpo

segunda-feira, 13 de julho de 2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Da resistencia helénica, um aplauso

Europe dodged a bullet on Sunday. Confounding many predictions, Greek voters strongly supported their government’s rejection of creditor demands. And even the most ardent supporters of European union should be breathing a sigh of relief.
Of course, that’s not the way the creditors would have you see it. Their story, echoed by many in the business press, is that the failure of their attempt to bully Greece into acquiescence was a triumph of irrationality and irresponsibility over sound technocratic advice.
But the campaign of bullying — the attempt to terrify Greeks by cutting off bank financing and threatening general chaos, all with the almost open goal of pushing the current leftist government out of office — was a shameful moment in a Europe that claims to believe in democratic principles. It would have set a terrible precedent if that campaign had succeeded, even if the creditors were making sense.
What’s more, they weren’t. The truth is that Europe’s self-styled technocrats are like medieval doctors who insisted on bleeding their patients — and when their treatment made the patients sicker, demanded even more bleeding. A “yes” vote in Greece would have condemned the country to years more of suffering under policies that haven’t worked and in fact, given the arithmetic, can’t work: austerity probably shrinks the economy faster than it reduces debt, so that all the suffering serves no purpose. The landslide victory of the “no” side offers at least a chance for an escape from this trap.
But how can such an escape be managed? Is there any way for Greece to remain in the euro? And is this desirable in any case?
The most immediate question involves Greek banks. In advance of the referendum, the European Central Bank cut off their access to additional funds, helping to precipitate panic and force the government to impose a bank holiday and capital controls. The central bank now faces an awkward choice: if it resumes normal financing it will as much as admit that the previous freeze was political, but if it doesn’t it will effectively force Greece into introducing a new currency.
Specifically, if the money doesn’t start flowing from Frankfurt (the headquarters of the central bank), Greece will have no choice but to start paying wages and pensions with i.o.u.s, which will de facto be a parallel currency — and which might soon turn into the new drachma.
Suppose, on the other hand, that the central bank does resume normal lending, and the banking crisis eases. That still leaves the question of how to restore economic growth.
In the failed negotiations that led up to Sunday’s referendum, the central sticking point was Greece’s demand for permanent debt relief, to remove the cloud hanging over its economy. The troika — the institutions representing creditor interests — refused, even though we now know that one member of the troika, the International Monetary Fund, hadconcluded independently that Greece’s debt cannot be paid. But will they reconsider now that the attempt to drive the governing leftist coalition from office has failed?
I have no idea — and in any case there is now a strong argument that Greek exit from the euro is the best of bad options.
Imagine, for a moment, that Greece had never adopted the euro, that it had merely fixed the value of the drachma in terms of euros. What would basic economic analysis say it should do now? The answer, overwhelmingly, would be that it should devalue — let the drachma’s value drop, both to encourage exports and to break out of the cycle of deflation.
Of course, Greece no longer has its own currency, and many analysts used to claim that adopting the euro was an irreversible move — after all, any hint of euro exit would set off devastating bank runs and a financial crisis. But at this point that financial crisis has already happened, so that the biggest costs of euro exit have been paid. Why, then, not go for the benefits?
Would Greek exit from the euro work as well as Iceland’s highly successful devaluation in 2008-09, or Argentina’s abandonment of its one-peso-one-dollar policy in 2001-02? Maybe not — but consider the alternatives. Unless Greece receives really major debt relief, and possibly even then, leaving the euro offers the only plausible escape route from its endless economic nightmare.
And let’s be clear: if Greece ends up leaving the euro, it won’t mean that the Greeks are bad Europeans. Greece’s debt problem reflected irresponsible lending as well as irresponsible borrowing, and in any case the Greeks have paid for their government’s sins many times over. If they can’t make a go of Europe’s common currency, it’s because that common currency offers no respite for countries in trouble. The important thing now is to do whatever it takes to end the bleeding.

Ending Greece’s Bleeding, Paul Krugman 5th July


Agora falta esperar para ver como se vão desenrolar as conversas… e se a pequena política abandona o palco em favor da História.

p.s. uma remissão:
Finland is a model European citizen; it has honest government, sound finances and a solid credit rating, which lets it borrow money at incredibly low interest rates.
It’s also in the eighth year of a slump that has cut real gross domestic product per capita by 10 percent and shows no sign of ending. In fact, if it weren’t for the nightmare in southern Europe, the troubles facing the Finnish economy might well be seen as an epic disaster. 3rd July - http://www.nytimes.com/2015/07/03/opinion/paul-krugman-europes-many-disasters.html?rref=collection%2Fcolumn%2Fpaul-krugman

sexta-feira, 19 de junho de 2015

we should

Saudade daquela vila feita cidade, plantada na margem do atlântico e dos braços de homens que puxam redes e dos braços de mulheres que puxam esses homens e da destreza das facas com que esventram e do sorriso franco rasgado na pele curtida pelo sol e pelas dificuldades de uma vida curta demais. Saudade daquele local onde a luz penetra directamente na alma e onde o vento, ao contrario da via sagrada de Dafní, gela o corpo compondo uma paisagem interior de beleza, glacial do branco que cavalga a espuma das ondas a esfarelarem-se nos rochedos com nome de santos e elementos prosaicos da vivencia da terra como paragem ou boca da baleia, e nem a visao do terceiro andar daquele predio com dois elevadores que nao utilizava ja ha tres anos substituia, nem a silhueta da torre eiffel, nem o caudal que se ia espraiando por baixo de pontes engalanadas mitigava aquela imagem daquele cais onde eternamente uma mulher de bronze esperava o seu marido com um medalhão ao peito com a sua figura. Relicario particular de dor e salvação, presença sempre ausente que é preciso lembrar para nao estranhar os seus bracos feitos de nós quando chega ou para nao se perder o nome levado pelo mar e pela miseria dos pés descalços e boné na cabeca enquanto os ventos das fiordes rasgam sulcos na pele e os maços de SG Gigante caem borda fora.
Ele que não tinha ido para Paris para se tornar artista ou fazer um doutoramento mas tão somente para se esquecer da sua presenca, para ganhar distanciamento da vida, para fingir que não estava a desistir apenas porque o local onde escolheu desistir era essa cidade onde muitos dos seus heróis viveram de passagem. Era essa característica de passagem que o fez ir, para fazer a passagem de si mesmo, algo inominavel, algo que não definia sob pena de ter que assumir que estava a fazer uma passagem para se encerrar na sua mente, cada vez mais estranha e cheia de nervos retorcidos.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Torpor

"O Syriza é a cirrose da Europa, a desgraça dos gregos intoxicou o projecto europeu."
João Figueiredo, PSD

Creio que o sr ministro das finanças Grego não esconda ouzo na lata do capitalismo mas, quem sabe? no lugar dele eu era capaz de esconder. Creio, aliás, que aquele olhar, esta imagem de desespero e resignação na derrota não são, de facto, uma imagem do desespero e da derrota que esperamos, são o aceitar de uma cortina de ferro. os países não morrem, não abrem falências, não cessam a sua actividade. As nações não se esquecem, os povos ou são total e completamente dizimados ou continuam clamando pela sua pátria. Os países mudam, as alianças transformam-se e as bandeiras são substituídas, não há projecto europeu que avance sobre a identidade de um povo, não há bandeira nacional que fará europeia, e uma cortina de fumo, de morteiros, ergue-se perigosamente próximo da Grécia e a Turquia não é tão estável que possa substituir os portos helénicos na NATO.


Foram os Gregos, e o despotismo, e os radicais do Syriza que fizeram isto tudo estalar, foi a banca grega que é corrupta, a fuga aos impostos das empresas gregas, os grandes conglomerados de armadores que colocaram capitais em paraísos fiscais como as Bahamas, ou o Luxemburgo. Só os gregos claro está, o resto está tão impoluto como um recém nado, e a Europa faz muito bem em não ceder, claro está. Não seria justo para os que cumpriram e com esforço e sacrifício seguiram as doutas linhas de orientação do FMI BCE e Comissão. Receita para o sucesso claro está, pelo menos da banca alemã que foi a primeira a ser paga com o dinheiro dos resgates. Resgate é de facto um bom termo, mas todos já vimos filmes suficientes para saber que no fim os raptores matam a vítima.


Tudo bem, porreiro da vida como dizia o outro, os Gregos vão-se, aliás, já começaram a imprimir dracmas para pagar salários e pensões no final do mês e a Zona Euro controla a saída desviando-se das ondas de choque qual boneco de animação. Afirma-se por aí que sabemos todos o que vamos fazer, aqui pelo burgo até se diz que até Dezembro está tudo bem, cofres cheiinhos.


Então os Gregos que se amanhem que o problema é deles, solidariedade só para bons alunos, os maus da fita tem que ser castigados, desde que nada aconteça aos outros. Óptimo, tudo assinado, tratado e esterilizado. Mas?…. afinal os países podem sair do euro? Ai podem? Então se eu apostar na saída de hmmmm deixa cá ver um fraco hmmm portugal e o estrangular até os cofres ficarem vaziinhos o que é que acontece mesmo? Ah, mas portugal não tem quase dívida grega, não vai ser afectado com a saída e o euro até pode baixar aí uns 20% para compensar promovendo as exportações. Espera lá, as exportações portuguesas são para onde mesmo? Europa? Pagas em euros? e a dívida? grande parte em dólares? Ah, então se calhar já não fica tão bem. Mas o BCE tem a mão por cima da dívida deles, intervém no mercado se for necessário. Intervém? e se eu chamar uns tipos com quem costumo fumar uns charutos e começar a fazer barulho contra frança e alemanha? será que o BCE continua a tentar salvar portugal ou corta as perdas? Tonterias, afinal os Mercados são racionais e vão perceber que ficamos todos melhor sem a Grécia e vai apostar que nos salvamos todos emprestando massa a rodos a juros baixinhos, até mesmo negativos.


E a Hungria páh? e a Ucrânia? e a Rússia? Não sejas aborrecido, não há risco nenhum, não há contágio, não vai acontecer nada à economia portuguesa, o euro vai sair mais forte e a UE vai ficar ainda mais catita. Já te disse que a culpa é dos Gregos e do Syriza.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

I know…


é lento o lento passar dos dias, começava assim a música na minha cabeça.
há mais de um ano que sei, que o rei não estava na melhor das formas, mas sempre achei que aquele pó, mágico, de tijolo ia ser o elixir da juventude dele. Ali nada o poderia bater, pensava eu, mesmo que a realidade já tivesse dito o contrário, lá tudo é mágico. Derrotado para mim continuava a ganhar aquela final onde faziam 22 graus e aqui estava um tempo de país tropical. A bola batida, o deslizar, inapto, quase forçado, fazia-nos crer que ele não estava realmente ali. Só um deslizar decente no jogo todo por parte do que ganhou. Não gosto dele, falta-lhe o cavalheirismo, de resto tem tudo para que eu gostasse, a falta de físico adequado, o tipo que não parece nunca ser capaz. Não, não é a melhor esquerda a uma mão, isso é o Gasquet, e como ele gostaria de lá estar, e talvez eu, até, pudesse torcer um bocadinho pela vitória - tudo menos o sérvio, na verdade. Mas lá ganhou o suiço, o que não fica para a história; o que fica, isso sim, é que a maldição do touro permanece… afinal, se calhar, o rei ganhou mesmo a final...

sábado, 6 de junho de 2015

a kind of...

Quando cheguei tudo me era desconhecido e depois como um puzzle as peças foram-me construindo a lembrança. Os pedaços eram colocados com a maior urgência, como pela mão de um gigante biónico que começa por fazer os cantos, para logo passar às bordas, como me dizem que se fazem puzzles, na mesma ordem com que se coze um ovo, primeiro a clara passa do seu estado de placenta para a rigidez plástica do branco e, só depois, a gema começa, languidamente, a enrijecer, sem esquecer o seu estado de compota. O gigante ia atirando as peças para os seus lugar correctos e eu reconhecendo-os com uma familiaridade assombrosa. Primeiro a rua que sobe, o bar que ainda hoje me parece ter levado um chuto que o deslocou umas casas para cima, um agora motel, onde antes era apenas pensão de putas à qual não dei muita atenção. Hoje é impossível não prestar atenção, em todas as janelas letreiros a dizer motel. O gigante continuava a atirar peças a uma velocidade estonteante, e, eu, após seis anos via a geografia do local com cores technicolor. O botéco da esquina agora serve "portuguese tipical food", antes era um pardieiro de copos cheios até transbordar, a rua sobe incrivelmente, não sei como a trilhei antes sem sentir o seu declive. A encimar continua o restaurante com mercearia à entrada, só serve a uns quantos é verdade, por iniciativa própria só compraria cogumelos secos e fugia dali para fora como acometido por uma doença contagiosa qualquer. Reparaste que antes tem um bar de meninas que dançam a partir das seis da tarde? Deve ser por isso que tem lá o motel, uma coisa leva à outra e não há lenocínio para ninguém, tudo dentro das vontades adultas e consentidas, afinal de contas o acto de consumo é algo que a sociedade actual enquadra melhor se feito por adultos. O restaurante continua igual, pelo menos de fora, não entrei. Nem fazia sentido. à frente tem um hotel, sabias? eu não, não o vi, aliás continuo com a sensação que não vi nada, embora guie a mão do ser que põe as peças. é tudo muito estranho e vivido, demasiado vivido até, parece que afinal o gigante não é biónico mas o Kubrcik e nada disto é muito real. Não fosse a minha ida aqueles bancos junto ao rio, à estátua que parece um grupo de gente desenhada pelo Munoz, e o café que serve tostas mistas, o que em Portugal não parece estranho, não acreditaria em nada disto. Não visse o carro bordô estacionado e os momentos antes da partida e juraria que é tudo falso, que o restaurante não existia, que não sabia se tem ou não mercearia, que o clube não mudou de sitio, que o parque de estacionamento não teve um teatro, que não existiram iogurtes de madrugada, que o calor era tanto que nos sentíamos embriagados, que se discutiam livros e loucuras em las vegas, que se falava nas mais inusitadas situações como obrigação. Negaria tudo e mandava o gajo à fava, mas tenho um medo terrível de não conseguir completar o puzzle.   

quarta-feira, 3 de junho de 2015

never pause the music



Paris, não se derrota assim um campeão, de maneira tão justa e tão clara. não se faz, é uma afronta ao sonho vedar-lhe a 9ª em tão pouco tempo, menos de 3h, não é derrota que se possa impor, foi ele que perdeu, não o outro que ganhou (e o outro não é de pouca monta). não se faz, porra

sexta-feira, 29 de maio de 2015

quarta-feira, 27 de maio de 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

da criminalização idiota

Uma baforada para os pregadores da virtude

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/05/2015)
         Daniel Oliveira
                         Daniel Oliveira
Deixei de fumar há um ano e meio. Uma decisão difícil, que exigiu muita força de vontade, para quem fumava dois maços e meio por dia. E deixei de fumar apesar da absurda espiral de perseguição aos fumadores. Posso mesmo dizer que ela foi, para além do vício e do abandono de um prazer (sim, fumar era um prazer de que sinto imensas saudades), o que mais me fazia resistir a este abandono. Detesto que me queira desviar para o caminho da virtude e dos bons costumes.
Eu gosto, como sabem, que o Estado cumpra as suas funções. Mas fico perturbado quando vejo tudo de pernas para o ar. Vejo que o Estado abandona o Serviço Nacional de Saúde, desregula o mercado de trabalho e se recusa a proteger-nos da exploração e do abuso, deixa o mercado entregue a si mesmo e permite a fuga das grandes empresas às suas obrigações fiscais. E quanto menos existe mais quer mandar nos nossos gestos quotidianos. Na realidade, o Estado deixou de proteger os cidadãos de quem tem mais poder do que eles mas está cada vez mais empenhado em proteger os cidadãos de si mesmos. Nós temos de viver com a liberdade económica de quem tem dinheiro e a liberdade de circulação de capitais. A única coisa que o poder político acha que não podemos aguentar é a nossa própria liberdade.
O ESTADO DEIXOU DE PROTEGER OS CIDADÃOS DE QUEM TEM MAIS PODER DO QUE ELES MAS ESTÁ CADA VEZ MAIS EMPENHADO EM OS PROTEGER DE SI MESMOS. A ÚNICA COISA QUE O PODER POLÍTICO ACHA QUE NÃO PODEMOS AGUENTAR É A NOSSA PRÓPRIA LIBERDADE
Nesta espiral legislativa, que tem a enorme vantagem de não exigir mais a um Governo do que uma caneta e vontade de agradar à maioria do eleitorado, surgiu mais uma medida, comum em vários países: acrescentar imagens assustadoras, muitas delas sem qualquer rigor científico e técnico, para que as pessoas deixem de fumar. Em vez de informação rigorosa, em vez de exigirem mais obrigações às tabaqueiras, em vez de se tratarem os cidadãos como adultos e as empresas como responsáveis, apela-se ao medo.
Deixei de fumar. Mas, perante os militantes higienistas, sempre prontos a converter-me e purificar-me, tenho uma vontade louca de pegar num cigarro e dar uma baforada de prazer. Sei que o tabaco mata e tira qualidade de vida. Mas não matou tanta gente como aqueles que sempre quiseram obrigar os outros a viver segundo as suas regras de virtude. E não tira tanta qualidade de vida como as hordas de moralistas que querem limpar o mundo de todo o vício.
Pena não ter coragem de morrer cedo. Comprava já um maço, daqueles que vão ficar parecidos com as capas do “Correio da Manhã”, cheios de fotos com cadáveres e frases bombásticas, e fumava-o com um indescritível prazer. Seria a minha homenagem aos que, menos temerosos do que eu, dedicaram a sua vida à imperfeição e ao vício.
não sendo hábito, este re qualquer coisa, não podia de deixar, podia mas apeteceu-me, de propagar esta crónica gamada ao Estátua de Sal

sexta-feira, 15 de maio de 2015

domingo, 3 de maio de 2015

Like any dealer he was watching for the card

Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo      uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
            à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
            existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
eu o pico do Everest 
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
            passaram.
E sou, no sentido mais enérgico da palavra
na carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
            passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica      irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
            em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama      no espaço duma pedra      em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
            lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
            lagos de incêndio e o teu retrato grande!



Mário Cesariny

terça-feira, 14 de abril de 2015

terça-feira, 24 de março de 2015

Será que respondeste à pergunta grega?

Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.

Não os chamo,
e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De Paixão.

Hérberto Helder
(1930 - 2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015

o grito e o eco da metralha


fazes o gesto de respirar, o teu corpo emula o acto de respirar, e no fim não entra nem sai ar. fica suspenso, sem respirar, tem que ser empurrado para um pequeno arfar. A sucessão da dor calada tem efeitos físicos, não é dor, nem rasgo, nem desilusão, é areia. Pequenos pedaços de areia que se empurram uns aos outros numa agonia de não terem para onde ir, comprimindo o peito, os órgãos da cavidade contra as costelas, contra o externo, demasiado cheio de areia para caber ar. não é dor, é compressão, é um canto escuro que se mantém e que se alastra como a mancha na parede, contaminando desde o sexo aos dentes, comprimindo, não deixando respirar, não acreditando no futuro possível ou imaginário, algo que empurra para a morte mas nem sequer a chega a desejar, uma necessidade do nada, sem morte ou sem vida. Ficas parado, bloqueado no olhar vítreo escondido pelos óculos escuros, o jornal pousado nas mãos que estranhamente não tremem por falta de sangue, pensas que tens que te levantar, sair, tentar que o ar frio te salve, e não consegues comandar os músculos, todo tu estás concentrado na opressão que sentes, no esforço máximo, quase fatal, de tentar respirar um pouco que seja. A cabeça a latejar, não sabendo se da falta de ar se da imobilidade que te aprisiona, o cérebro a não se conseguir libertar de pensar que aquela opressão é o que sentem os condenados à morte por um ataque fulminante, não te doí o coração, não parece que ele seja isolável, está misturado com a areia, coberto, molhado, desgastado como os rochedos que têm nomes de santos, e no entanto não consegues não pensar que aquilo será um ataque de coração, talvez de pânico, mas tu sabes que os ataques de pânico têm outros cambiantes. Tiveste que entrar, chovia quando lias o jornal e lamentas o acto que não te permitiu ficar ao vento, queres fumar um cigarro na esperança que a opressão passe, que a areia se transforme em vidro e faça frio no teu peito, mas sabes que o fumo vai ser quente e te vai saturar ainda mais, mas não tens outra alternativa, não consegues ter outra alternativa, tentas acabar o artigo do jornal que fala dos mortos em África ou de um atentado qualquer lá longe e nenhum dos conteúdos te diz algo particularmente próximo, é numa espécie de voyeirismo que os lês, para saber que morre gente por esta ou aquela razão, não interessa, mas juntas as letras com a pressa dos enforcados, acabas o artigo sem saber o que disse, sem saber porque morrem. Respiras fundo, tentas, o teu respirar fundo é sorver um pedaço de ar tão pequeno como o necessário a um colibri, manifestamente insuficiente para  a empresa imprudente que tens pela frente, a de te levantares, dirigires-te ao balcão e pedir a conta. especialmente pedires a conta, tens que falar com um ser humano, e ele não pode notar como tu estás, não pode dilacera-te o peito, não pode! vais, imprudente, com o olhar fechado, fixado num ponto fundo de uma garrafa de uma porcaria qualquer que não chegas a perceber o que é, não vês os pés, as mesas, as pessoas, não vês nada, é tudo difuso, uma vaga sensação que existe mas da qual não podes tomar consciência sob o risco de cair. O homem tira-te a conta antes de lá chegares mas obriga-te a falar. falas a olhar para a caixa registadora, olhas para as moedas na mão não tens troco certo, dás as moedas e já olhas para fora com a mão estendida para que te deixem cair a moeda na mão e saias dali como perseguido por fantasmas. O casal da única mesa ocupada da esplanada levanta-se quando cruzas a porta, a saída é única, paras o passo, tiras o cigarro do maço para lhe dares distância, acendes e o peito enche-se de um bafo quente do deserto, o desespero aumenta, só queres que eles se distanciem mais ainda, o cheiro dos perfumes baratos enoja-te, torna-se insuportável, gritas-lhes para se despacharem, mas nenhum som saí, concentrado que estás em respirar e a não andar como se caísses. Avanças para o carro, sentas-te, deixas-te, o cigarro não está a ajudar. Será um ataque de pânico, será a dor de dentes? será a falência de que orgão? Um ataque de pânico não pode ser, é demasiado feminino, demasiado fraco, não podes ter um ataque de pânico, foi no meio do jornal, não tens razões para isso, não há ataques de pânico a meio de notícias de fome e morte, isso fica para os dias de sol em que as preocupações são outras, hoje chove e estão nuvens, não pode ser mas continuas a simular que respiras, passam momentos inteiros que o teu peito se congela no acto em que devia entrar ar, o peito oprime-te, dobras-te para olhar para o chão mas a ausência de dor é a mesma, esmurras duas ou três vezes o travão de mão e sabe-te bem, mas é demasiado estúpido para ser essa a solução. Paras. Pensas que devias falar com alguém, ligar a alguém a dizer "estou a ter um ataque. de coração? de pânico? não, de areia. De areia, mas estás na praia? não, tenho uma ampulheta demasiado cheia no peito." mas não tens a quem ligar para dizer isso. a quem ligarias com essa franqueza? não pode ser, devias ligar a alguém para falar de merdas sem importância, de trabalho não pode ser, não consegues articular suficientemente bem para isso, não podes fazer notar a tua falência mental. de futebol ou maquilhagens, para não pensares, só ouvir uma voz e fazer de conta que afinal está tudo normal e tu não estás sem ar por excesso de areia. olhas o telefone vezes sem conta, mexes-lhe para enganar as pessoas que passam, que não estás cheio de areia mas sim a trabalhar afincadamente e tens muita gente a mandar-te coisas que não podem esperar nem mais um segundo a ser respondidas tal é a desmesura da importância. deixas cair os óculos, pesam-te na respiração, pegas no jornal que abres na notícia de África para ver se a seguinte é sobre impostos ou declarações políticas, não consegues juntar as vogais dos títulos, são demasiado grandes para serem vogais legíveis, atiras o jornal para o lado e deixas cair a cabeça entre as pernas, contra o volante, e pensas que se passa alguém que repara e te pergunta se está tudo bem tens que fazer todo o esforço, que certamente fará com que a areia te submirja, para lhe dizer sim sim, está tudo bem claro, com uma cara muito espantada de quem não percebe porque lhe fazem essa pergunta. Sentes os olhos demasiado abertos, olhas o retrovisor e os teus olhos parecem os mesmos de sempre, mas estão demasiado abertos, pressionados para fora, doem-te todos os dentes, respiras pela boca, a areia é abrasiva. acendes outro cigarro, a mesma sensação quente, abres todos os vidros do carro, pensas que queres vomitar mas há três dias que não comes portanto não pode ser essa a solução. riscas o espelho com rugas a pensar que elas sempre existiram, a areia não apaga as rugas, fica lá depositada a aumentar o efeito. fazes gestos idiotas com a cara, mecânicos, numa esperança vã de distracção e com a curiosidade dos reality shows de saber como se parece um idiota a ter um ataque que o vai matar.

quinta-feira, 19 de março de 2015

era a tarde mais longa...

'If you, who are organized by Divine Providence for spiritual communion, refuse, and bury your talent in the earth, even though you should want natural bread,—sorrow and desperation pursue you through life, and after death shame and confusion of face to eternity."
william blake

quarta-feira, 4 de março de 2015

80 metros de profundidade

Olhavas muitas vezes pelo canto do olho, de cada vez como uma censura terna ao que não estava a fazer. O problema sempre foi esse, o que eu não fazia. Raras foram as vezes em que o problema se deveu ao que fiz, talvez pelo início. Certamente pelo início. Prometi demais, sem saber prometi o que não iria cumprir, e tu, sem saberes, sem me conheceres, deste como certo o que prometi; querias acreditar que era verdade, mesmo se deverias ter alguma reserva de confiança. Aliás, toda a tua reserva foi canalizada para não acreditares no que não querias acreditar, ignorando todo o capital de dor que tinhas, foste destruindo o que te impedia de crer no que desejavas. É sempre um mau principio esse, mas foi o nosso e eu, eu que mantenho sempre um federalismo escrupuloso em não me ter como certo, fazendo o esforço para dissecar o que digo, sabendo que uma parte poderá dever-se ao que sinto, à necessidade de não dor, fui resvalando nesse trabalho de laboratório e vendo o sol a pôr-se dia após dia sem tirar um momento para, com uma pinça, retirar os corpos estranhos que se iam depositando no meu discurso, nas minhas atitudes. A culpa foi muito mais minha que tua, eu fui-te deixando acreditar, tu queria tanto que fosse verdade tudo o que te dava a entender, que eu nem precisava de o dizer completamente, bastava deixar as peças colocadas que tu ias juntando e inventando as regras do jogo, pensando que eu conhecia plenamente o jogo que tu ias construindo, como não haveria de conhecer se era eu que ia deixando os valores pousados no tabuleiro de pequeno-almoço. Infelizmente não conhecia, e não tive a coragem para te o dizer, mesmo quando tu ias-me pondo à prova e exigindo que o quinhão fosse cada vez maior, que a dose fosse mais completa, que o jogo se transformasse em realidade, eu ia fornecendo alimento suficiente para que não parasses, por muito que isso me custasse, e custou, tantas vezes custou tão mais do que se fosse realidade, nessa necessidade de construir sem te dar a conhecer que era uma construção, de me duplicar em mais do que dois, sim, que essa realidade obrigava-me a assumir vários papéis para os quais eu não tinha a menor apetência. A alguns adaptei-me, e passaram a não me custar, tornaram-se realidade, mas a maior parte deles foi sempre com preços de sangue que os encenei a todos os momentos, em todos os segundos, para que a realidade não desse lugar ao jogo, para que não existissem sombras debaixo desse sol frio que nenhuma Iorque era capaz de aquecer. Creio que os únicos momentos de descanso eram os de insónia, onde a minha mente já não construía realidades, em que assumia o jogo como um processo externo, uma realidade construída onde eu era rei, que a governava, e escravo, onde um ser autoreflexivo pan-óptico me impunha a obediência a todas as regras do limite da realidade, protegendo a quarta parede contra o meu próprio desejo de a derrubar, nessas horas, longas e onde a dimensão do cansaço de encenação tomava conta, impedindo-me de adormecer, pois até no acto de adormecer haveria lugar à ritualização para que a tangibilidade do desempenho não irrompesse o frágil equilíbrio que albergava, permitia-me a olhar o laboratório como um palco para conquistar o mundo que sabia não querer, mas que me afligia perturbar. E tu foste olhando de soslaio à minha diminuta capacidade de indo administrando doses cada vez superiores, de fazer com que o sonho superasse a realidade, que é a necessidade quando a realidade não se encontra disponível, duas pastilhas para não sonhar, que sem o contraponto a realidade torna-se algo de difícil localização, eu que já não conseguia engolir mais comprimidos, que não tinha organismo para aguentar a toxidade após tanto tempo e já me tinha destruído o estômago, sim, que é com o estômago que se suporta a dor, não é com o coração, o doí-me o coração é uma palermice para quando a pancada não é suficientemente forte, uma dorzita aguda no peito que logo passa, agora quando a hecatombe avança como um comboio suburbano capaz de te trucidar as pernas sem te levar a consciência de que sangras, como um animal abatido a quem não foram capazes de cortar o pescoço, a dor sente-se no estômago e acompanha-te dias, semanas, meses, anos a fio, até que te esqueces da dor, não porque a deixaste de sentir mas, porque ela é tão presente que já faz parte de ti.

terça-feira, 3 de março de 2015

exercício 1

vida louca vida imensa, já que eu não posso te levar, quero que você me leve, não é isto mas é algo parecido com isso. Viagem directa ao desconhecido, ao esquecimento e a uma paz de tumba. Óptimo, tumba, cova rasa, algo parecido com beber um negroni ao pôr-de-sol. Um cigarro e enquanto a cinza caí o barulho de um corpo a bater no chão, uma calma inimaginável, um fio no monitor, e acabou-se os sobressaltos, já não há pi pis para ninguém, não me chateiem que estou morto, finei-me.
Nada mais me interessa, nem mentiras, nem mesmo das sinceras, contam já. Pão paz e o raio que te parta, só pode haver paz quando já não importar haver pão, que se foda a protecção e os atentados, acabou-se. Exagero? nada de exagerado aqui, uma rede entre duas árvores e uma bomba relógio atada aos cordões, vai no balanço com o tic tac até à eternidade.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

55 anos depois...

de um livro que demorei tanto a ler (e que estupidez foi essa demora):
“Após muita reflexão e hesitação, partilhei este livro com algumas pessoas em quem confio e fiquei satisfeita por saber que elas o consideram digno de publicação. Estou maravilhada em poder publicar depois de todos estes anos” - Harper Lee

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Paris é uma mulher de cabelo negro, gola carmim e

uma linha de lábios em sorriso


não podia deixar de assinalar a resposta


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

those who choose security over freedom deserve neither*



Jesus died for somebody's sins but not mine

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

As he bummed his cigarette



ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher 
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo 
de crateras extintas – vai por essa porta 
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
in Horto de incêndio, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Begin, murderer. Pox, leave thy damnable faces, and begin! Come, the croaking raven doth bellow for revenge.

No dia 17 de Novembro senti sangue na garganta. Há quatro anos Novembro foi, particularmente, frio, talvez por isso o sangue, e eu estava no inicio deste caminho que acabei por seguir, sem saber. Saía cada vez menos, comprar cigarros, tomar café, ler o jornal, ir às compras, mais ao menos por ordem de frequência, sendo que cigarros e café eram muitas vezes frequências acumuladas, assim como com o jornal, sendo que com as compras a maior correlação eram os cigarros, embora não raras vezes também tomasse café. Desse tempo recordo que ainda resolvi uns problemas em balcões de lojas e dos correios, na sua maioria problemas com contas ou artigos defeituosos, uma torradeira que começou a deitar fumo passado duas semanas, e às terceiras torradas que lhe punha, de a ter comprado ou uns problemas com o débito automática no banco das contas do telefone e luz. Por essa altura, comecei a comprar de forma mais organizada, talvez mais automática seja melhor definição, pois de organizado nunca tive nada, sem fugir muito do cabaz de semana para semana. Em retrospectiva diria que estava a afinar uma receita de sobrevivência, com cálculos elaborados, embora inconscientes, de duração dos produtos e combinações dois a dois e três a três, que foi ao que acabei por reduzir a minha perícia na cozinha. No inverso dessa disciplina estavam as compras de vinho, gin e whisky, aí foi o consumo que teve que começar a ser mais disciplinado, mas isso já numa fase posterior e com pouco de inconsciente, fruto de restrições exógenas. A verdade é que me assustei com o sabor a ferro na boca, ainda pensei que seria um dente mas depois de passar a língua pela fileira dos ditos não consegui localizar a fonte o que me levou, com a prática de catarro de fumador, a fazer uma convulsão, para que os fluídos na garganta regressassem à boca, com o ferro a inundar a boca como se tivesse acabado de levar um murro nos dentes. Cuspi para o lavatório e a minha saliva apresentava-se de um escuro sanguinolento. Passei a boca por água, voltei a cuspir e o lavatório devolvia-me um lago rosa com fios mais escuros. Olhei-me ao espelho e voltei a repetir o processo, o sabor a ferro, quase terroso, era já menos intenso; cuspi e nada do que se tinha passado se voltava a repetir, apenas uns farrapos escarlates que nem tingiam a água, de forma considerável, passei a boca por água, bocejei, deixei sair o líquido
- isso ainda te mata
e dei o processo por satisfeito, olhando o espelho a esperar que me respondesse se me deveria preocupar e ir ao médico ou se era apenas mais um sinal de uma máquina demasiado complicada para eu a compreender. Não me doía a garganta, ou pelo menos não mais do que o normal, o sangue tinha passado sem eu conseguir realmente identificar de onde é que ele vinha, assim como assim poderia ter sido de alguma coisa que eu tinha comido, ou uma veiazita que não tivesse gostado dos copos da noite anterior e tivesse resolvido alertar-me para o facto. Lavei os dentes, num reflexo de que a higiene oral faz parte de não termos razões para ir ao médico, olhei o espelho, ele continuou mudo, pensei que estas coisas aconteciam e que se voltasse a repetir talvez devesse procurar ajuda e fui para a cozinha fazer um café e acender um cigarro. Se fosse algo de grave, de certeza que, daria sinal com as agressões matutinas, não deu e portanto não voltei a pensar nisso até agora.
- essa merda vai acabar por te matar
Nesse dia, lembro-me, talvez pelo sangue, que percebi pela primeira vez que as compras que fazia davam-me precisamente para uma semana, sem ter que me maçar de novo em voltar ao supermercado. Quando cheguei a casa, com as compras, ainda, em cima da mesa da cozinha, sentei-me no parapeito da janela, com as pernas do lado de fora a olhar as pessoas que passavam na rua. Fiquei um bocado parado, sentindo o frio do alumínio nas costas, enquanto pensava o que significava saber que as compras nos davam para uma semana, que raio de vida é essa em que sabemos exactamente que as compras nos dão para sete dias, nem mais nem menos, o que também é falso, como depois se veio a provar. Sentia o frio do Inverno a aproximar-se, a senhora do telejornal tinha dito que correntes polares se aproximavam da região continental, na cara que parecia encolher de frio e na mão que perdia cada vez mais sensibilidade. Atirei o cigarro para o passeio da frente e estudei a trajectória dele a cair, um quarto de elipse, meia curva de gauss com a ajuda do vento. A queda do cigarro não perturbou ninguém que passava, tinha-lhes sido indiferente e nem barulho fez, ou pelo menos que eu notasse, pelo que considerei que era melhor levantar-me dali e ir arrumar as compras nos seus devidos sítios e não esperar por ter que lavar a loiça para fazer tudo ao mesmo tempo, visto que tinha carne e por muito que pensasse que a temperatura estava baixa, supunha que não tão baixa assim.
Olhando do dia de hoje, 27 de Fevereiro, percebo que aquele dia foi especialmente importante nestes quatros anos que se passaram, precisando quatros anos, três meses e dez dias, por terem aberto um caminho que na altura não parecia possível. O resto do mês de Novembro teve pouco de diferente dos meses que lhe precederam, cada vez saía por menos tempo, descia para tomar um café e fumava o cigarro em casa, não passando mais do que cinco minutos a folhear o jornal enquanto bebericava o expresso, o que acaba por ser das coisas que mais sinto falta hoje em dia, não o jornal ou o tempo no café, mas tomar um expresso em quatro goles faz-me uma falta desgraçada, aliás, tomar um expresso faz-me uma falta desgraçada, já pensei, até, em comprar uma máquina mas a qualidade dos cafés dessas máquinas de pastilhas é completamente diferente de um tirado com café moído pouco tempo antes, sendo que este pouco tempo poderá sempre variar um bocado, mas nunca exceder os dois dias, com a temperatura de água correcta, que só se obtém após muitos cafés tirados para pessoas a correr os tomarem em pé ao balcão e dizerem, está aqui o dinheiro, apontando com o dedo enquanto já dão meia volta para voltarem ao seu dia de trabalho que na generalidade dizem trocar facilmente por ficarem em casa sem fazer nada, e comprar uma a sério parece que me transformaria num excêntrico em vez de apenas esquisito. Comecei a comprar maços de cigarros no plural, para não ter que voltar à rua todos os dias, e a pensar que poderia encomendar comida do supermercado que eles me entregariam à porta, o que felizmente, ainda, demorou três meses a acontecer, aliás, só aconteceu após ter percebido que também podia encomendar volumes de uma tabacaria e que eles me entregavam em casa. Até ao Natal desse ano ainda fui a uns quantos jantares com amigos, tendo, depois, recusado todos os jantares, ditos, de Natal, com umas desculpas esfarrapadas de que tinha muito que fazer ou que não estava no país nessas datas. Creio que ninguém acreditou muito nas minhas escusas mal disfarçadas mas também não me chatearam particularmente, não mais do que um "anda lá", "devias vir", "gostávamos que viesses", tinham-se habituado, nos anos anteriores que eu não estivesse presente, e embora a situação fosse, diferente não fizeram caso.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

domingo, 7 de dezembro de 2014

And then the veins stand out like highways

cada passo fazia um baque distintivo no chão, os dela mais finos e audíveis, os dele mais secos e curtos, ambos calçavam botas com sola de madeira. Ela usava as botas por fora das calças, protegendo-as de ficar empapadas, ele, botins, que se deixavam notar enquanto o tecido escurecia e com o peso da chuva se colava ao cano da bota. Os passos, embora não medidos, eram lentos, não fugiam da, pouca, chuva que caía, fugiam deles mesmos e nessa fuga cada passo aproximava-se do chão a disparar salpicos para todos os lados. O passeio apresentava pequenos lagos, uns ligados por rios que espelhavam a chuva, deformando-se em ondas circulares, tornando negro o tapete já de si cinzento escuro. As botas aterravam no chão com uma solidez nada expectável para quem não costuma andar à chuva, ela pousava a ponta e só depois o tacão, ele calcava com o tacão e deixava cair a biqueira que se dobrava para dar origem a um novo passo. Ao principio quase não chovia, era cacimbo só, uma neblina baixa e espessa, ainda não nevoeiro, mais líquida. Tinham acabado de jantar e o silêncio fez com que ela perguntasse se não queria dar uma volta, que ainda não chovia. Ele assentiu com um "se quiseres". Vestiram casacos de algodão pesado, o dela de um rosa velho, esbatido, o dele azul marinho, quase cinzento, com um bolso embutido para os cigarros ao nível da cintura. Dez passos após terem saído começou a pingar, não falaram, não demonstraram, sequer, que tinham noção que começava a chover, continuaram simplesmente a andar como se tivessem destino, embora o destino não pudesse ser mais do que chegar ao velho forte quinhentista e voltar pelo mesmo caminho, sob pena de, se fossem por outro lado, passarem por uma rua mais iluminada e com um punhado de entes nos cafés, algo que não suportariam, a consciência de se sentirem envergonhados pela deterioração de comunicação seria demasiado impeditiva para que não tivessem que fingir à luz diáfana dos candeeiros de rua. Jantaram calmamente, beberam um garrafa de vinho e a nenhum dos dois apetecia-lhe sair. A decisão foi tomada não por vontade mas por medo da alternativa, zapping incessante entre programas noticiosos, computadores abertos, redes sociais, e-mails de trabalho e silêncio, com um ocasional cigarro e, talvez, a sorte de um copo de whisky partilhado que permitiria proferir "queres?", "obrigada", "não". Saíram para fugir ao destino da noite, substituindo o cansaço mental da incomunicabilidade pelo cansaço físico que pouco espaço daria às almofadas do sofá, ocupados que estariam em despir-se, fumar mais um cigarro em pé a ver se alguma notícia importantíssima lhes tinha escapado, o que de resto era uma estupidez pois ao mínimo sinal de relevância noticiosa o telefone de algum deles já tinha tocado, e ir para a cama, onde o silêncio não seria menor mas teria a justificação de que era necessário dormir. Avançavam para aquele destino circular e ela tentou falar, perguntou qualquer coisa sobre o dia, que ele tinha saído a meio da tarde e ela não sabia para onde. Obteve uma resposta curta e seca, sem ele se dar conta que era uma resposta como um eucalipto. Ela calou-se e arrependeu-se de ter falado, ele pensou que já não conseguiam conversar porque a ela não lhe interessava o que ele tivesse a dizer. Quanto mais avançavam mais a chuva se avolumava, voltar para trás era irrelevante, já que ficariam encharcados de qualquer maneira, mais valia continuarem com o plano. Nenhum dos dois queria ter mais um acto falhado que os devolvesse ao habitual com o peso que isso proporcionava, e, ainda mais, com o facto de este puder ser a gota que faz transbordar o copo e os enviar para mais uma discussão sem fim onde a destruição estava sempre assegurada e da qual não conseguiam sair, nem, incólumes nem com alguma espécie de decisão de ordem prática. Passaram pelo café a meio do caminho, que mais uma vez apresentava as suas cores esbranquiçadas e uma luz quase negra, onde estariam não mais do que três mesas ocupadas e não mais que sete clientes. Ele pensou em parar para tomar um café, mas sabia que ela não era favorável a cafés à noite, principalmente após já terem tomado um em casa, pelo que não lhe disse nada. Ela esteve quase para lhe dizer para tomarem um café, não que lhe apetecesse o café em si, aliás não o tomaria, pediria uma água com gás ou algo do género, mas para poder sair por uns momentos da chuva, mas como sabia que ele gostava de tomar café e não disse nada é porque não lhe apetecia parar e não queria que ele fosse ao café só para lhe fazer a vontade, como lhe parecia que tantas vezes fazia, com as consequências disso a serem mais desconfortáveis que a chuva. Do café, um casal ficou a olhar para os dois vultos que passavam com trinta centímetros de distância entre eles e a pensar porque raio alguém andaria à chuva naquela direcção, uma vez que não pareciam pescadores e nem canas carregavam.
viste? vi. Quem era? não sei, está demasiado escuro. Pescadores? com este tempo os pescadores não pescam nestas rochas. Estranho!
A mente dele desprendeu-se, entrara no café e ficara a perscrutar quem seria que estava no café, de quando em quando ia ali tomar café depois de jantar, normalmente sozinho uma vez que a ela raramente lhe apetecia sair, para a encontrar, depois, já no sofá, estendida, e sem lhe perguntar nada sobre a sua saída. Ela pensava que podiam ter entrado, que como não tinha sido ele a perguntar talvez percebesse porque é que ele saía tantas vezes para tomar café, se estaria lá alguém que pudesse ser o motivo dessas saídas.
O chão dali para diante tinha um certo declínio que lhe permitia apresentar uma superfície luzidia mas sem água acumulada. Adaptaram o passo para não escorregar, ele com mais dificuldade que ela, talvez pela maneira de pisar, e continuaram até encontrarem o lago para onde a água fugira. Ele estendeu a mão, para a ajudar, que ela não viu e o fez recolhê-la com um gesto de desalento, voltando à silhueta individual. Enquanto a mão perorava no ar ficou a pensar porque é que ela escolheu o casaco rosa, estava a chover, o verde escuro ficava por certo melhor. Não percebia essa escolha, como tantas outras, não se usa calças brancas no inverno, por certo também não se usaria casacos rosa claro quando o céu se apresenta fechado, essa escolha ficaria confinada aos dias frios mas sem nuvens, aqueles em que o céu se apresenta limpo e um sol frio reino, onde o calor vem de outros lados, como de casacos rosa, e por certo que aquelas botas não seriam as mais confortáveis, embora a esse respeito tivesse mais dúvidas, poderia-se dar o acaso de que as botas com o tacão mais alto fossem as mais confortáveis. Ficava contente por estar com aquelas botas calçadas, sólidas e confortáveis, aquelas botas que pensava sempre que eram ferradas por terem uma costura por baixo na sola, a coser pele à base. Sempre que as calçava ficava com a sensação de ser um cavalheiro de outros tempos, algo entre um cavaleiro e um tipo daqueles que não tem amarras ao presente e mira o pôr-do-sol como destino, montado numa mota potente ou num barco à vela em direcção a Veneza. Ela, num vislumbre, seguiu o braço dele em trajectória descendente, tendo demorado um segundo a entender o movimento e ficando com a sensação que se tinha apercebido demasiado tarde. Não disse nem fez qualquer gesto, passando a poça com agilidade, contente com a sua independência de não precisar do braço dele para ultrapassar aquele simples obstáculo. No mar, muito depois das ondas rebentarem, pequenos barcos ardiam no firmamento.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

I can see the darkness, through the cracks

a noite abatia-se e com ela o frio a penetrar nos ossos. Uma mão, quase dormente, pendurava um cigarro da meia noite. Da janela do primeiro andar era impossível vê-los no passeio a olhar o mar, apenas um ponto vermelho. Dois casacos compridos e o cabelo levado pelo vento, duas figuras a preto e branco de costas para o mundo. Não falavam, ocupados a ver as ondas a esmagarem-se contra os rochedos. Dois mundos que não se tocavam unidos por um mar furioso. Ela fitava a espuma que se precipitava abandonada depois do embate, ele fumava um cigarro em que se comprimia o desejo de se enfiar dentro de água. O nevoeiro envolvia-os como um cobertor húmido que cortava as feições. Calados, sempre calados, as mãos dela escondidas; as dele, cada vez mais roxas, esqueciam a temperatura. De longe a longe um carro passava a alta velocidade para logo a estrada ficar vazia e apenas se notar o neblina a correr nos candeeiros. Tinham percorrido a marginal como se tentassem libertar-se de uma ameaça que os perseguia, cruzando a chuva rala que caía como se ela não existisse. A única coisa que comunicava entre eles era o barulho que o isqueiro dele fazia quando acendia um cigarro. O dia tinha-se afundado naquela margem de oceano e a noite imperava com o tom lilás que certas noites adquirem quando querem mostrar uma lua submersa de nuvens. A má iluminação noturna mostrava duas figuras a avançar com os casacos abertos pelo vento e as botas cada vez mais escuras de água. Quando resolveram parar, ainda chovia, e pelas faces rolavam pequenas gotas de água que os percorriam até ao peito. Tinham, já, passado o ponto em que o frio, ou a água, os incomodava, em que o abismo que as suas sombras projectavam tinha importância, que a ausência não se tinha tornado parte do caminho percorrido. Existia uma clausura que não parecia partir pela intemperie, uma dor que eles queriam quebrar pelo sofrimento infligido e que se transformava numa constante torturante. Os precipícios dentro de cada um deles berravam mais alto que as ondas a quebrarem, que o mar a galgar a praia, furioso, até quase os atingir no passeio, mas nenhum deles conseguia ouvir o outro, eram como dois barcos no meio das vagas sem conseguirem comunicar, fustigados pelo vento e pela chuva, tornados cegos pelo nevoeiro, a cruzarem irremediavelmente a espuma até aos rochedos lhes abrirem os cascos e sangrarem a asfixia de permanecerem imóveis sem que do primeiro andar alguém os conseguisse ouvir ou avisar que o farol se apagou, que o faroleiro ficou bêbado e tombou no café sem activar a luz, que aqui os espinhos não rasgam a pele, alojam-se e criam gangrena, escondidos na carne, até que a infecção se veja nos olhos e mais não consigam que os fechar, a arder de uma febre da qual não se conseguem libertar.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

in a shallow grave


From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view. 


E. A. Poe

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

But my words like silent raindrops fell



Do not go gentle into that good night

Dylan Thomas1914 - 1953
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

domingo, 16 de novembro de 2014